segunda-feira, 14 de agosto de 2017






No Princípio Era...


Tudo começou com Getúlio Vargas, ditador de 1930 até 1945, e que
em 1950, se elegeu pelas urnas, democraticamente, Presidente da
República. Iniciou um processo de tirar a primazia das oligarquias que
comandavam os jornais, revistas, rádios e TVs. Samuel Wainer iniciou a
rede de jornais Última Hora, em 1951. E Vitor Costa, em 1954, depois de
uma carreira vitoriosa na Rádio Nacional do Rio, onde começou como
contrarregra, adquiriu a Rádio Mayrink Veiga na então Capital Federal.
Começou a Organização Vitor Costa comprando a Rádio Nacional de
S.Paulo, a TV Paulista canal 5 e a Rádio Excelsior. Esta tinha a concessão
da futura TV Excelsior.
O exportador de café José Luís Moura queria ter uma televisão na sua
cidade, Santos. Associou-se a Vitor Costa. Adquiriu um material usado
DuMont, no México. Segundo os técnicos, sucata. Moura criou a Rebratel,
uma firma fabricante de equipamentos para televisão, com escritório
em São Paulo, na Rua Cardeal Arcoverde, entre dois cemitérios.
Quando o presidente Juscelino Kubitschek foi participar de um almoço
no então chiquérrimo Parque Balneário de Santos, Moura preparou
uma recepção e transmissão com as câmeras da TV Excelsior. Pouco
antes, iniciara uma precária transmissão experimental. Pediu a Vitor
Costa elementos da OVC para prepararem o terreno na Baixada Santista.
Vitor ofereceu o grande radialista Rebelo Júnior, o homem do
goooooool inconfundível, que fazia parte da cúpula diretiva, com
Dario de Almeida, Raul Guastini e outros, e formou uma pequena equipe.
Entre os quais, escolheu Álvaro de Moya para ficar alguns dias no
Hotel Atlântico, com a família. Moura tinha como amigo e conselheiro,
um advogado jornalista que tinha uma coluna política n’A Tribuna de
Santos, Saulo Ramos.
Eu descia para Santos com o Rebelo, dirigindo um Chevrolet, apavorado.
Ele sofria de uma doença do sono que o fazia, por frações de

segundos, adormentar. Estava falando, e eu de olho. De repente, o
charuto pendia de sua boca, eu esticava a mão e segurava o volante,
nas curvas da Via Anchieta. Rebelo acordava e continuava a falar a
mesma frase que interrompera. E me dava uma bronca, por tirar a
mão da direção. Não tinha a menor noção dos momentos de soneca.
Churchill era assim também.
José Luís Moura era um homem de negócios, um empresário bem-
-sucedido e achava que Vitor Costa tinha os mesmos defeitos dos
homens que vieram do rádio e dirigiam televisão. Pensava algo mais
profissional, menos amadorístico, mais empresarial. Pensava em filmes.
Enlatados, como nós, profissionais da época lutando contra a produção
hollywoodiana classe D, dublada em português.
Desde Rin-Tin-Tin e Papai Sabe Tudo, esses enlatados ocupavam espaço
nos dez programas mais vistos da televisão brasileira.
O jornalista João de Scantimburgo, proprietário do centenário periódico
Correio Paulistano – que ficava como uma bela coincidência,
na Rua Líbero Badaró, homenagem ao jornalista assassinado por
sua luta pela liberdade de expressão – aproximou Moura de outro
empresário do café: Mario Wallace Simonsen. João de Scantimburgo
ficou como presidente.
Mário também era exportador de café, também tinha uma empresa fabricante
de equipamentos de TV, além de um aparelho receptor de TV,
All Aces. Era representante da Marconi inglesa e tinha feito a primeira
rede ao transmitir a inauguração da nova capital no dia 21 de abril de
1960 Brasília/Belo Horizonte/Rio/S. Paulo. Moura sabia que Mário era
um gigante na área. Tinha cerca de cinquenta empresas sediadas em
Zurique, na Suíça, a Wasim, Comal no Brasil. Era o homem que conhecia
o mercado internacional como a palma da mão. E socorria o governo
brasileiro, sempre inepto para cuidar do principal produto, até então,
de exportação do Brasil, o café. Simonsen comprou a parte de Vitor
Costa na TV Excelsior. Ele também pensava em rede.

Queria ser a AT&T do Brasil, antevendo a Embratel, beneficiando todas
emissoras a formarem redes nacionais. A unificação do Brasil, ele era
um nacionalista convicto, querendo romper o nosso atraso.
Havia uma campanha contra ele em diversos setores. E havia muitas
lendas. Ou verdades. Comprou um quarteirão em Lisboa, uma partida
de azeitonas gregas num porto europeu, uma rede de mercados na
Alemanha, etc. Mas era verdade que, com seu senso de modernizar o
nosso país, lançou a rede Peg-Pag, o primeiro supermercado nacional,
com dois endereços: um na Consolação, esquina com a Paulista e outro
na Gabriel Monteiro da Silva. Hoje, esses mercados estão com o Pão
de Açúcar.
Coerente com sua conduta honesta em relação ao regime democrático,
Simonsen resolveu apoiar Juscelino, usando a TV Excelsior para eleger o
candidato da situação, marechal Teixeira Lott, um democrata convicto.
Lott, mesmo antes de ser ministro da Guerra de Juscelino, impedira as
tentativas de golpes, que pululavam nos tempos da UDN.
Mas José Luís Moura era janista fanático e queria a Excelsior apoiando
a candidatura de Jânio Quadros. Os dois não chegaram a um acordo
de manter a nova TV simplesmente num momento de escolha democrática.
Moura ofereceu uma quantia para Simonsen e deu prazo para
o dia seguinte até meio dia para uma decisão. Mário, antes do meio
dia, comprou a parte de Moura pelo preço acertado.
A equipe escolhida por Moura estava trabalhando firme. Era o Saulo
Ramos como diretor comercial (depois, ministro da Justiça), o engenheiro
Carlos Paiva Lopes como diretor técnico (depois, presidente da
Ericsson e da Embratel) e o Armando Piovesan como administrador (depois
diretor da Ceasa). Pedimos demissão coletiva. Moura nos garantiu
que Simonsen estava satisfeito com nossos planos e Saulo passou a ter
contato direto com Simonsen. Saulo Ramos, dada sua capacidade, foi
convidado por Jânio para ser seu oficial de gabinete, em Brasília. Eu
assumi, interinamente a direção comercial.


E Saulo reatou Jânio e Simonsen. Nos planos da Excelsior, pela primeira
vez, as vendas eram do departamento comercial, a administração preparava
as condições e o técnico armava a qualidade da transmissão. Mas
todos ficamos de acordo que, quando a TV estivesse no ar, a ligação
da programação com o público telespectador era da direção artística
e este diretor tinha total liberdade de ação quando da transmissão.
Saulo também foi pioneiro na ideia de dividir parte do percentual do
departamento comercial entre nós quatro diretores, cabendo a cada um
0,7% do faturamento bruto. Esse esquema inovador abriu caminho para
Roberto Montoro, Walter Clark, Boni e, posteriormente, Joe Wallach
fazer uma proposta vencedora para Roberto Marinho e estabelecer o
sucesso da Rede Globo.
Ainda sob a direção de Moura, este tinha concordado em deixar a ideia
de filmes e fazer uma televisão nacionalista, como Simonsen. Eu mudei
rapidamente os planos. Tinha convencido Moura, quando duma visita
sua ao governador de S. Paulo, Carvalho Pinto (janista, então), que
deveríamos inaugurar a Excelsior no dia 9 de julho, pois era preciso
marcar que um novo canal iria surgir no dial, o Nove. Ele voltou todo
entusiasmado, dizendo que o governador colocara a inauguração na
festividade oficial, com sua presença no show de estreia.
Assim, pude precipitar o início da nova TV. Dia 9 de julho, no Teatro
Paulo Eiró, uma inauguração tumultuada, exatamente como eu achava
que a televisão não deveria ser. O show, dirigido por Abelardo Figueiredo
era ótimo; seu assistente, o Manoel Carlos era excelente; mas as
condições do teatro eram insuficientes para tal encenação ambiciosa.
O irmão de Mario, Luis, tinha uma loja espetacular, em frente ao teatro,
era representante da Ford, e ofereceu o local para os escritórios e
estúdios. Só que não tinha infraestrutura nenhuma. O Manoel Carlos e
o Jayme Barcelos, que eu tinha convencido a deixar seu talento de ator
por uns tempos, e trabalhar com Saulo no setor de vendas, foram ao
Teatro Cultura Artística e conseguiram o local, com alguns pequenos
problemas.

Ruth Escobar encenava Mãe Coragem, de Bertolt Brecht no grande
auditório e oferecemos uma compensação exagerada para ela encerrar
a temporada. Não ia faturar aquilo nem em um ano. Mas foi bom
para todas as partes.
Convenci Moura que este era o local ideal e esperamos Jardel Filho e
Maria Fernanda terminarem sua temporada no pequeno auditório,
para transformá-lo num estúdio, usando o de cima como auditório
da TV. Os concertos programados pela Sociedade de Cultura Artística
foram mantidos e salvamos a entidade de uma situação difícil, pré-
-falimentar, pois não conseguiam pagar a dívida com a Caixa Econômica,
pela despesa de construção do teatro na Rua Nestor Pestana.
Tornei a mudar os planos da programação, a fim de utilizar esse
belo auditório. O dia 9 tinha sido um fracasso, no meu gosto pessoal,
programei para o dia 31, o último domingo do mês, para confirmar
a iniciação da Excelsior no mês de julho. Então, deu-se à luz. Sempre
gostei de números e o título do show seria Brasil 60. Mal sabia que ia
caracterizar uma década. Seria um programa nacionalista: só música
brasileira. Abelardo objetou que não havia condições de, todos os domingos,
só música brasileira por uma hora. Nada disso, respondi. Uma
hora e meia, das 20h30 às 22h. Impossível. Mesmo misturando com
esses emergentes, a tal de bossa nova? Impossível.
Manoel Carlos sugeriu que ligássemos a música popular brasileira com
o cinema, o teatro, a literatura (sua eterna paixão) e até o futebol.
Entrevistas, humor, variedades, além da música. Maneco assumiu a
produção, eu sugeri alguém inteligente e culta para apresentar: Bibi
Ferreira, que estava no Rio num show, recém-chegada de Portugal.
Um emissário foi convidá-la e ela aceitou, pensando que era apenas
uma apresentação. O primeiro programa, bolado pelo Manoel Carlos,
com minha direção de TV (switcher), com Grande Otelo, Mazzaropi,
Roberto Freire, Caetano Zamma trouxe também Oscarito.

Quando o astro das chanchadas da Atlântida entrou no palco, diante
do auditório lotado com um público mais de teatro (convidados pelo
Maneco), do que auditório de TV, ele fez sinais que estava afônico e
não poderia dar entrevista. Então, pediu um violino para um músico,
uma cadeira, sentou-se, segurou o arco com os dentes numa ponta,
a outra ponta entre os joelhos, pegou o violino nas mãos e tocou O
Tico-Tico no Fubá!
Brasil 60 ficou tão bom que eu saí correndo pelos corredores do teatro
e deveria estar com uma expressão tão feliz que Maria Fernanda,
que tinha terminado seu espetáculo no pequeno auditório, me viu e,
feliz também, embora não tivesse participado da TV, me beijou! Um
beijo de partilha de felicidade, como só os grandes artistas do teatro
vivenciam este momento magno de uma vida.
Decidimos, então, que Brasil 60 seria para sempre. Eu e o advogado do
grupo Simonsen, José Carlos Rao, sobrinho do famoso jurista Vicente
Rao, fomos ao Rio, no Teatro Serrador, contratar Bibi em pleno show.
Ela nos esperaria após o espetáculo para acertar o contrato. Nós chegamos
atrasados e a eterna diva brilhava no pequeno palco. Terminou
sob aplausos e fomos para os bastidores. Ela soube tratar muito bem
de seus interesses e acertou um bom contrato.
Voltamos para a mesa e... Surpresa! Todo mundo se mandara. Nossa
mesa estava à nossa espera, todos os garçons perfilados, a orquestra
tocando música. Envergonhados, engolimos dois bocados e pedimos
a conta. Era cinematográfico. Era o Rio antigo.
Manoel Carlos passou a ser meu assistente, com o sonoplasta da TV
Paulista (quando fizemos diversos teledramas juntos) Vicente Dias
Vieira, que era meu primeiro auxiliar. O Brasil 60, que seria Brasil 61
no ano seguinte, 62... passou a ser a cara da TV Excelsior.
Walter George Durst continuava contratado pela TV Tupi e fazia o excepcional
TV de Vanguarda, o melhor programa da televisão brasileira

e ponto de partida da linguagem nacional, ou do jeitinho nosso de
fazer televisão. Eu tinha supervisionado, produzido (além de adaptar
e dirigir um por mês), o Teledrama 3 Leões na TV Paulista, canal 5,
criado pelo grande Dermival Costalima a fim de concorrer com o teatro
da Tupi. Mas eu e Durst, meu mestre, imitávamos a linguagem dos
grandes escritores e diretores de Hollywood. E buscávamos aproveitar
esses ensinamentos de Hitchcock, Billy Wilder, Orson Welles, Stanley
Kubrick, John Huston, William Wyler, para tentar uma teledramaturgia
brasileira. Durst tinha feito, entre outros espetáculos, o excepcional
Calunga, de Jorge de Lima e eu Clara dos Anjos, de Lima Barreto e
O Cortiço, de Aluizio de Azevedo.
Na Excelsior, imaginei então o Teatro Nove, às segundas-feiras só com
textos nacionais. Gianfrancesco Guarnieri, Roberto Freire, Jorge de
Andrade, Chico de Assis, Vianninha, Walter Negrão e outros autores
escreviam especialmente para o veículo dirigido por Flavio Rangel e
Adhemar Guerra, com Natalia Timberg, Cleyde Yáconis, Rosamaria
Murtinho como atores fixos, e Stênio Garcia, Fúlvio Stefanini, Armando
Bogus, Irina Grecco, Juca de Oliveira, Bentinho, Geraldo Del Rey, Elisio
de Albuquerque, Riva Nimitz, Henrique Cesar e outros, convidados.
A produção e direção de TV era eu que fazia e depois passei para
Roberto Palmari produzir e Reinaldo Boury no switcher. O sucesso foi
tão grande que Saulo Ramos vendeu outro programa do gênero, com
peças internacionais, o Teleteatro Brastemp, produzido por Bibi Ferreira
e dirigido por Antunes Filho, aos sábados.
Esse processo de teleteatro, antes da invasão das telenovelas, atingiria
seu auge com o Teatro 63, de Walter George Durst, Túlio de Lemos e
Roberto Palmari. Eu já não estava mais na Excelsior.
Quando a TV Excelsior completou um ano, o faturamento estava cobrindo
as despesas, graças ao sistema que eu tinha visto na TV norte-
-americana e a qualidade dos elementos do departamento comercial,
o ambiente interno de coleguismo. No dia seguinte, o homem forte
de Simonsen na TV, Paulo Uchoa de Oliveira nos chamou para uma
reunião. Pensamos que era para nos congratular.

Tínhamos ganho três prêmios Roquete Pinto da TV Record, Bibi Ferreira,
Manoel Carlos e Simonetti. Doce ilusão. Era para nos apresentar
mais um diretor. Outro que ficaria entre nós e a cúpula: Lair de Castro
Coti, ex-diretor da McCann-Erickson. Ficamos umas araras. O Armando
Piovesan era quem mais sofria nas mãos do Paulo Uchoa, pois precisava
despachar todo dia com ele. Me avisava: o Paulo mandou despedir,
de novo, a Liba Frydman, eu consertava. Depois, o Orpheu Paraventi
Gregori. Corri para a sala do diretor e expliquei que o trabalho dele era
com o Cinema em Casa, às 23 horas e ficava de madrugada preparando
os filmes do dia seguinte.
Se quisesse, passaria de madrugada e veria a luz da sala de cinema
acesa. Eu sabia que Paulo jamais viria. Ok. Nova chance. Avisava o
Orpheu do perigo e advertia para chegar mais cedo. Até hoje, com
seu jeito de nobre fracassado, Orpheu não acredita. E pensa que ele
vinha mais cedo? Só se fosse para pedir um cigarro, en passant, para
o porteiro. Este, estava certo que o Orpheu era o dono da TV, e não o
Wallinho, que era tímido.
Para exemplificar o ambiente interno da TV Excelsior, vamos à folia!
Todas as noites, uma turma saía pelos restaurantes do Bexiga, começando
pelo Giggeto, ali em frente. E quase morríamos de rir. Jô Soares,
Juca Chaves, Agostinho dos Santos, Roberto Palmari, Carlos Paiva Lopes,
Jaime Barcelos, mas o Manoel Carlos era o mais engraçado de todos.
Às vezes, estava na minha sala, numa reunião importante com gente
de fora e entrava um boy interno, visivelmente ensaiado cuidadosamente
pelo Maneco: “Seu Moya, Seu Manoel Carlos mandou avisar
que (caprichava) o Sr. Luigi Pirandello está na sala dele, esperando
pelo senhor.” Os presentes se levantavam, solícitos, alegando que eu
tinha outros compromissos. Era um amigo tipo Lelio Castro Andrade,
da Livraria Francisco Alves, que editara Eu Sou Pelé, escrito pelo Benedito
Ruy Barbosa. Íamos tomar sorvete na esquina, fazendo algazarra.
Um pedestre nos encontra e pergunta se somos aí da televisão. Queria
fazer uma sugestão para o Cinema em Casa. É comigo mesmo.

O homem trabalhava todos os dias e assistia no seu dia de folga da
semana o filme do dia e notou que estávamos repetindo muito a nacionalidade
naquele dia e que parecia ter terminado o estoque, por
enquanto. Por que não mudar a data? Passa filme italiano noutro dia
e norte-americano naquele. Ótima sugestão. Mudei a programação
do Cinema em Casa.
Dia de festa no Brasil 60, Edson Lopes, o cantor afro-brasileiro, vai
interpretar um número de ópera e trouxe um smoking. Depois do
ensaio no domingo, com o tuxedo no cabide, pergunta para Manoel
Carlos onde pode passar a roupa. Maneco indica minha sala, depois a
do setor de cinema e o insta a pedir para o nobre fracassado Orpheu
passar a roupa. O cantor recebe um sabão. Volta. Reclama com Manoel
Carlos que aquele é um dos diretores. Maneco, matreiro: “Mas você
ofereceu uma gorjeta?” O cantor volta com o smoking e uma nota de
dez na mão...
Como o Paulo Uchoa de Oliveira humilhava muito o Armando Piovesan,
entrei na sala, antes do diretor chegar e troquei as identificações do
intercomunicador. O diretor chega, aperta o botão correspondente e
chama o Armando Piovesan. Pausa. Uma voz inquire: “Dr. Paulo? Aqui
é o Arlindo Partiti no videotape.” Dr. Paulo olha o intercomunicador e
chama Armando pelo telefone. E manda consertar o intercomunicador...
Wallinho Simonsen chega da Europa, todo entusiasmado com Il Gattopardo
de Visconti, e nos reunimos na sala do Dr. Paulo. Pergunto se ele
quer comer algo, mando buscar no Clube Escandinavo, em frente, uns
sanduíches. Enquanto não chegam, montamos uma mesa de pinguepongue
na mesa de reunião da diretoria.
Chegam os sandubas, comilança. Wallinho vai para o Banco Noroeste
eu não deixo limpar a sala. Paulo Uchoa de Oliveira chega e vê a mesa
montada com redes e raquetes, restos de sanduíches e migalhas. Chama
o Armando e pergunta quem fez isso. O filho do dono. (E trate de
engolir seco).

Tassilo Marischka, parente dos produtores austríacos da série de Sissi
com Romy Schneider, era o representante no Brasil da King Features
Syndicate Television, de William Randolph Hearst.
Recebeu desenhos novos do Popeye. Proponho para o José Alcântara
Machado o patrocínio da Ovomaltine, no lugar do espinafre. Ele acha
ótimo e manda a autorização. Dr. Paulo me chama e manda desfazer o
negócio, alegando que o Zé tinha prometido essa verba para os intervalos
comerciais, com lucro líquido para a TV. Não adianta argumentar
que sábado, fim de tarde, meia hora assim vai alavancar a programação
noturna. Ligo para a Alcântara Machado Publicidade. “Zé, você sabe
como é o Paulo Xuca-Xuca. Manda a outra autorização, mesma verba
para intervalos.” Levo a nova autorizacão, Dr. Paulo aprova, eu a jogo
no lixo, compro o Popeye e ponho no ar. Sabia que ele nunca veria a
programação dos sábados.
Esse comportamento, legado dos grandes de Hollywood que, apesar dos
estúdios, conseguiam fazer obras-primas. Tanto que a Caça às Bruxas
chegou à Meca do Cinema e encanou dez, e fez uma lista negra para
escritores, diretores, atores, que marcou para sempre o cinema. Nós
achávamos que poderíamos agir da mesma forma. E eu quase entrei
bem. No caso do Sartre.
O Manoel Carlos tinha dois amigos o Bento Prado Jr. e Roberto Schwarcz,
ambos eram anfitriões e tinham convidado Jean Paul Sartre e Simone
de Beauvoir para virem ao Brasil e ofereceram uma entrevista na TV.
Eu era fã dos dois. OK. Sartre fala para Jorge Amado que vai dar uma
entrevista na televisão brasileira. O escritor brasileiro o dissuade, Sartre
exige as perguntas, acha que são boas e decide dar a entrevista. E eu
quase fui despedido.
Quando o Walter Avancini era líder sindical conseguiu, pela primeira
vez na história do rádio e TV, uma greve geral.Fiquei na corda bamba.
Era a favor da greve, mas era também diretor. Meus amigos comunistas
me pediam para tomar cuidado. Pouco antes da greve, a Excelsior tinha
dado aumento para os funcionários.

Não havia clima, dentro da nossa TV para adesão. O ambiente aqui era
tão bom que a equipe se achava diferente da maneira como tinham
sido tratados noutras estações de TV e rádio.
Dr. Paulo reunia-se no Convênio – uma sigla ilegal e imoral em que os
donos das rádios e TVs bloqueavam aumentos e evitavam que artistas
saíssem de um canal para outro. Havia um teto que impedia o progresso
profissional e artístico do meio. Edson Leite dinamitou isso. Mas, na
época da greve geral, era um impasse. O que fazer? Aproveitei-me da
ingenuidade do Dr. Paulo e disse a ele que seria injusto para com os
donos das outras TVs, justo a Excelsior ficar no ar. Se ela ficasse sozinha,
todos os telespectadores sintonizariam a nossa emissora prejudicando
as deles. Pensei, como diretor, que seria uma boa dar uma lição nos
patrões roubando a audiência, pelo menos durante a greve. Mas minha
convicção que a parede deveria vencer, conforme meus princípios,
falou mais alto.
Matreiramente, convenci o Dr. Paulo de que, em solidariedade aos
colegas, ele, num gesto nobre, tirasse a Excelsior do ar. Edmundo Monteiro,
Dario de Almeida, Paulo Machado de Carvalho tiraram o chapéu
para o nobre colega e agradeceram o beau geste.
Eu, aproveitei o convite de um anunciante e fui passar uns dias de férias
em Campos de Jordão, hóspede do prefeito.

Álvaro de Moya - extrato do livro Glória In Excelcior.

quinta-feira, 8 de junho de 2017


Ilustras feitas em aquarela para o livro Em Alto e Bom Som, da Editora Laços 






quarta-feira, 7 de junho de 2017







OSCAR - É um super-herói pioneiro brasileiro que precisa ser resgatado

ATUALMENTE ACONTECEM DEBATES NOS EVENTOS DE
QUADRINHOS, PROTAGONIZADOS POR UMA PERSONAGEM
HISTÓRICA DESCONHECIDA, OU MESMO REDESCOBERTA.
FOI O QUE ACONTECEU EM 2005, QUANDO EU, 100 ANOS DEPOIS
DO LANÇAMENTO DA REVISTA O TICO-TICO, AO
REALIZAR A PESQUISA ICONOGRÁFICA, JUNTO AO
COLECIONADOR E ADVOGADO FÁBIO SANTORO, PARA O LIVRO
“O TICO-TICO – O CENTENÁRIO DA PRIMEIRA REVISTA EM QUADRINHOS DO BRASIL”

Oscar, historicamente deveria ser considerado o primeiro super-herói do mundo. Isso porque suas aventuras estrearam em O Tico-Tico em 1906. Enquanto o famoso Superman, só seria lançado em 1938.
O autor de Oscar foi um adolescente brasileiro que, adulto se tornaria um notório acadêmico, Gustavo Barroso.
Oscar era um príncipe e um menino com superpoderes. Coisa muito comum atualmente em centenas de personagens de quadrinhos, mangá, literatura infanto-juvenil, desenhos animados e filmes. Por todo o mundo.
Também, antes de Superman, tivemos Popeye: criado em 1928; Fantasma: criado em 1936; Mandrake: criado em 1934; Hugo Hércules: criado em 1902; Billy Bounce, the ballon boy e Professor Prestochange de 1901; Professor Hypnotiser de 1903; Samson, the strong man, de 1905, todos criados nos EUA e superpoderosos.
Décadas antes de Lanterna Verde, Oscar possuía um anel, com um brasão com símbolo pátrio, que lhe concedia seus poderes especiais. Ele podia voar e usava um uniforme especial.
Em sua aventura Oscar é um príncipe que tem seu reino invadido e tomado por um usurpador. Nosso herói adquire um anel mágico, que tem talhada a bandeira brasileira, que lhe dá superpoderes.
Oscar foi republicado integralmente em 1924 em um álbum, O Anel das Maravilhas, que até pode ser considerada uma das primeiras graphic novels do mundo, ao lado das russas, citadas por Will Eisner em seu tratado, A Arte Sequêncial.
Algumas imagens do Oscar e de seu principal inimigo aparecem timidamente no álbum histórico de luxo O Tico-Tico 100 Anos - Centenário da Primeira Revista de Quadrinhos do Brasil, da Opera Graphica Editora, de 2006.
Foi a partir de então que foram feitas uma série de conexões: Na edição da Opera Graphica o traço de Gustavo Barroso é comparado ao de Moebius. Barroso era nordestino assim como Watson Portela, artista considerado “o Moebius brasileiro”, e que assinava Barroso em algumas de suas obras. Ainda, Watson desenhou uma aventura de super-heróis em estilo mangá chamada “Dragões da Independência”. Peça publicada em 1983 na revista Robô Gigante da editora Grafipar.
ANTES DO SEU TEMPO
Oscar é um herói épico pueril. É um cavaleiro mágico, arquétipo dos heróis medievais. Destemido. Porém, por possuir superpoderes fantásticos, é um super-herói antes do tempo. Apenas os desenhos de seu autor, Gustavo Barroso, um garoto de 16 anos, em 1906, ao criar essa HQ pioneira, bastam para serem considerados obra-prima. Uma história em quadrinhos pioneira e completa é merecedora de todos os elogios e créditos.
Sua estrutura de enquadramentos, planos sequenciais, domínio de anatomia, construção de enredo, design de página, storytelling, constituem uma invenção de um gênero cuja formação engatinhava, em todo o mundo. São experimentações gráficas que à época, só o genial Winsor McCay havia apresentado, em sua série semanal icônica, Little Nemo.
Por sua vez, o menino Barroso mesmo tendo como predecessor Little Nemo, avançou com sua narrativa visual. Além de criar um roteiro de forte carga literária. Ressaltamos a imensa qualidade dos desenhos do jovem, anatômica e tecnicamente superior ao de muitos profissionais de nossas artes desenhadas de então. E mesmo futuros. Não é exagero dizer que Gustavo Barroso com seu Oscar antecipou enquadramentos e tomadas de cenas que se popularizariam nos quadrinhos anos depois, como os castelos medievais e heróis épicos de Príncipe Valente, a partir de 1936, os “quadrinhos redondos” nas páginas de Capitão América, nos anos 1940, as cultuadas narrativas repletas de legendas descritivas e dramáticas, dos quadrinhos de horror da EC Comics, na década de 1950. E ainda o fato de ele ter apresentado sequências aéreas em planos visuais que o notório Moebius viria também a explorar só na década de 1970, em sua cultuada série Arzak.
Se Oscar é ignorado como um super-herói pioneiro, o que dizer então de seu antagonista Hygino? Também surgido em 1906. Hygino é o grande vilão que mata o pai Oscar e sequestra sua irmã, Borboleta. Até então não existia supervilão fixo nas historietas. O primeiro seria Ming, em Flash Gordon, em 1934.
Pena, que continuemos a constatar que além da falta de memória histórica, os brasileiros, muitos dos meio acadêmico e formadores de opinião, da mídia especializada em quadrinhos, preconceituosamente fazem questão de ignorar nosso pioneirismo e experimentalismo. Oscar e Gustavo Barroso são penalizados por isso.
Barroso não ficou só com Oscar. Desenhou dezenas de histórias em quadrinhos institucionais. E seus desenhos realistas se igualam ao dos grandes artistas estrangeiros da década de 1930. Foi ainda responsável pela versão da mais completa História do Brasil em Quadrinhos. Escrita por ele e desenhada pelo notável Ivan Wash Rodrigues e publicada pelo venerado Adolfo Aizen, na editora Ebal, no final da década de 1950, quando os quadrinhos sofriam uma perseguição implacável das instituições moralistas e da Igreja.
Mesmo com As Aventuras de Oscar reunidas em formato de álbum especial na década de 1920. Vinte anos antes do boom dos super-heróis, quem possui tal livro, neste pais de analfabetos na cultura gráfica?
Oscar ganha ainda mais valor quando observamos que foi escrito por um jovem de 16 anos, por tratar de temas que cresceram na mídia com a fantasia de O Senhor dos Anéis, os super-heróis, a ficção científica e toda uma miscelânea narrada no estilo “Era uma vez...”, que é como se entendia as fantasias literárias em sua época.
Não podemos deixar de valorizar aqui o trabalho dos pesquisadores Rod Gonzales e Bartolomeu Lancelott Martins, que em 2015 publicaram dezenas de artigos em seus respectivos blogs, sobre o “super” Oscar.
O CRIADOR DO OSCAR
Gustavo Barroso, foi notável membro da Academia Brasileira de Letras. Seu nome completo: Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso. Usou pseudônimos de : João do Norte, Nautilus, Jotanne e Cláudio França. Nasceu em 29 de dezembro de 1888, em Fortaleza, Ceará. Faleceu em 3 de dezembro de 1959, aos 70 anos, no Rio de Janeiro. Estreou na literatura, aos vinte e três anos, usando o pseudônimo de João do Norte, com o livro Terra de Sol, um ensaio sobre a natureza e os costumes do sertão cearense. Além dos livros publicados, escreveu e desenhou para jornais e revistas de Fortaleza e do Rio de Janeiro.
As obras de Barroso incluem 128 livros, em que aborda História, folclore, ficção, biografias, memórias, política, arqueologia, museologia, economia, crítica e ensaio, além de dicionário e poesia. Quando era deputado, Gustavo Barroso iniciou uma ação para exaltar as tradições militares do Brasil. Apresentou em 1917 um projeto de lei para resgatar as tradições do regimento do império. Em 1927 conseguiu recuperar o uniforme histórico da Guarda Imperial de honra, que ele mesmo desenhou. Historiadores relatam que Barroso usou como referência desenhos de Debret feitos no período imperial.



CRONOLOGIA DA PRÉ-HISTÓRIA DOS SUPER-HERÓIS
1863 - Spring Heeled Jack. Dá supersaltos. Folhetim. Inglaterra
1902 - Hugo Hércules, com superforça. Tira. Jornal Chicago Sunday Tribune. EUA.
1905 - Samson, o poderoso. Tem superforça. Tiras. The New York Evening Telegram. EUA.
1906 - Oscar. Tem anel mágico, superforça, é voador e usa uniforme. Brasil.
1908 - Pimpinela Escarlate. Salteador mascarado. Literatura. Inglaterra.
1912 - Tarzan. Literatura pulp. EUA.
1915 - O Espantalho. Mascarado fora da lei. Literatura. Inglaterra.
1919 - Zorro. Literatura e cinema mudo. EUA.
1928 - Popeye. Superforte. Tiras para jornais. EUA.

1930 - Fantomas (Ôgon Batto). Tem cara de caveira e vários superpoderes. “Teatro de papel”, ao vivo. Japão.

terça-feira, 6 de junho de 2017




Curitiba e os bons quadrinhos

Por Franco de Rosa

Também escrevi artigos sobre quadrinhos para jornais de Curitiba. Para O Estado do Paraná e Correio de Notícias. Pouca coisa. Publiquei tiras diárias na Gazeta do Povo. Na Gazeta, eu levava as tiras a cada três meses. E ontem, último dia de minha mais recente estada na cidade, era segunda de manhã e chovia. Nostalgicamente, voltei aos idos de 1977/78, quando publicava minha tira diária do Chucrutz na Gazeta do povo. Eu sempre ia em segundas feiras. Quase sempre chegava na cidade debaixo de chuva. 

Chegava cedo. Saia de São Paulo no último ônibus. Levava-se quase sete horas de viagem. A pessoa que recebia meus trabalhos, o editor, só chegava na redação as 15 horas. Ele também tratava de fazer meu pagamento. Eu ia a cada dois meses. Ficava andando a pé, da Roviária ao centro da cidade. Passeava buscando conhecer as ruas de acordo com os nomes descritos no livro O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan. Quase sempre acabava indo parar em lugares afamados. Becos, botecos, sinucas, sapatarias e barbearias. Até pontos de baixo meretrício. 

Naquela época haviam os cinemas pulgueiros, que iniciavam as seções as 10 da manhã. Quase sempre com filmes de King Fu. Eram seções corridas, com uns 4 filmes diferentes rolando por dia. 

Lembro de um filme brasileiro, em particular, estrelado por Tony Vieira e Claudete Joubert, devido a uma passagem pitoresca. Entrei com a fita já começada. Chovia muito e a sala estava bem cheia. Dava para perceber, nas cenas externas, pela imensa quantidade de pedras grandes e pelo terreno montanhoso, que o filme havia sido rodado em Itu. Estava acontecendo um bang bang entre dois grupos. Era um faroeste feijoada como apelidaram, aquele gênero brasileiro gerado na Boca do Lixo. 

Pois acontecia de um cara ou outro atirar. E estourar uma lasca de pedra, como os efeitos especiais determinaram. Porém, quando um dos caras saiu de trás de uma pedra, uma lasca estourou de repente. Antes do tempo. Irritado, o artista em vez de se ocultar atrás da pedra, apontou o dedo para alguém próximo da câmera e gritou, "ô, viado!". O fato valeu o dia. 

Estando em Curitiba, eu costumava comer, na hora do almoço, uma pizza de massa grossa, vendida aos pedaços, bem servidos, em um boteco que não existe mais, na Praça Tiradentes. 

Eu publicava tiras na Gazeta, e escrevia artigos sobre quadrinhos e desenho animado para o concorrente, O Estado do Paraná, cuja redação ficava próxima a um pioneiro grupo escolar. Inclusive cheguei a assistir um ensaio de parada de 7 de setembro, dentro desse local. Curiosamente, recordo agora que cheguei a estar em Curitiba várias vezes em nos dias 7 de setembro. E também chovia. A última vez foi na Bienal de Quadrinhos de 2014, onde tive a honra de beber caipirinha ao lado de David Lloyd. 

Mas, no jornal o Estado do Paraná eu publiquei um artigo de página inteira sobre o longa de animação canadense Heavy Metal- Universo em Fantasia, dirigido por Gerad Potterton. Com ajuda de Paulo Nery de Lima, que, como eu, também era autor da Grafipar. Ele me ditou vários trechos do artigo, de uma revista gringa. Para ampliar a matéria. Que foi bem completa, graças ao vasto material de divulgação fornecido pela distribuidora do filme. Tinhamos ali uma obra realmente muito importante. (leia o artigo aqui no blog). 

Antes do filme chegar ao Brasil, eu já havia adquirido sua trilha sonora em Curitiba mesmo, em uma loja de LPS importados que havia ao lado da revistaria do Melo, dentro de uma galeria subterrânea, que existe, próxima, da catedral da cidade. Este disco duplo, em vinil, não saia de meu pic-up, por décadas.

Ocorreu, com este artigo, algo interessante. Ele foi publicado poucos dias depois da estreia do longa. Mas foi muito bem diagramado. Com um desenho do Moebius enorme no centro da página. Foi matéria de página inteira, na última "capa". O resultado é que o filme ficou uma semana a mais em cartaz. Coisa incomum.

Este artigo eu publiquei integralmente no especial que editei para a Grafipar, Xanadú. Com a historieta homônima, escrita e desenhada pelo meu compadre Watson Portela. Cuja arte-final eu realizei.

E hoje, para meu orgulho, Rafael Portela, meu afilhado, nascido em Curitiba, filho de Watson, está desenhando pela primeira vez um roteiro meu. Diretamente de Recife, onde mora atualmente.

domingo, 28 de maio de 2017




África-Brasil

Por Franco de Rosa

Estava em Florianópolis e precisava voltar para São Paulo depressa. Arrisquei. Fui ao aeroporto, sem reservas. Por sorte, havia um passageiro desistente de última hora, assim peguei o único acento disponível. E sentei no corredor. Em uma fila apertada. Na janela estava um loirinha bonita, de cabelos encaracolados, que enviou a cara no vitrô e ali ficou. No meio, um negro enorme, vestido elegantemente um terço azul. Terno. Paletó, calça e colete.
Quando o avião começou a andar pela pista, se preparando para levantar voo, o camarada do meu lado começou a se agitar bastante. Colocava as mão nos ouvidos. Tirava. Se mexia. Girava os olhos. Demonstrava pânico mesmo. A moça enfiou ainda mais a cara na janela. E eu comecei a temer que ele viesse a ter um treco. Mas, assim que a nave se estabilizou e entrou em velocidade de cruzeiro. Ele se acalmou. Felizmente o voo é curto. Perto de 35 minutos.
Então vieram as comissárias de bordo trazendo sucos, agua e lanches. Quando entregaram o dele, ele imediatamente pediu outro, antes mesmo de abrir o seu pacotinho, que só continha um sanduba sem graça mesmo. Eu lhe ofereci o meu. Disse que não iria comer, pois tinha almoçado bem. E era verdade. Havia comido num bar, na vila onde estava hospedado, na Praia da Barra da Lagoa, um farto e delicioso “prato feito” com peixe do mar.
O sujeito devorou os dois pães com presunto e queijo. Agradeceu. Dizendo que acordara muito cedo e não teve tempo de tomar o pequeno almoço. Se desculpando ainda por ter ficado intranquilo durante a subida do avião. Devido aos seu sotaque e expressões usadas, em português castiço, percebi que ele era um cidadão angolano.
Conversamos o resto da viagem. Ele revelou ter sido paraquedista e que lutou na guerra. Participando de 27 missões em território Russo. Quando disse isso interrompeu a narrativa por um instante e me olhou fixamente. Depois continuou, explicando que fez o que se faz nas guerras. Coisas que muitas vezes o fazem acordar no meio da noite. Compreendi, e nada comentei. Seu súbito silêncio revelava que ele havia matado muita gente. Disse, que quando o avião levanta voo, sempre fica incomodado, mas ele precisa viajar pelo menos três vezes ao ano para o Brasil, onde vem comprar implementos agrícolas e equipamentos. Pois agora é um pequeno empresário da agricultura.
Falei então que falei a meu respeito. Que estava em Florianópolis a passeio, mas também trabalhando. Acompanhando a produção de um projeto que vinha sendo desenvolvido fazia 18 anos, a revista livro As Periquitas, com trabalho de 23 autoras. Que eu era autor de histórias em quadrinhos, mas trabalhava mais como jornalista e editor nos últimos tempos.
Então ele arregalou os olhos, e segurando meu braço esquerdo disse que, antes, até o final década de 1990 ele trabalhava no Jornal de Angola, como autor de banda desenhada. Ou seja, histórias em quadrinhos. Desenhando uma tira diária. O nome dele era Antonio Piçarra. Não consegui entender o nome da tira. Mas encontrei pela internet, Mankiko.
Então se anunciou que já estávamos sobre Cumbica. Que iriamos pousar. Desta vez, meu, agora “colega”, não se incomodou com a descida. Foi uma aterrisagem suave, daquelas que os passageiros aplaudem, quando o avião para, no solo. E Sergio apressadamente desceu, pois estava com um grupo de angolanos. Enquanto eu, tranquilamente me dirigi ao ônibus, que leva os passageiros ao saguão de desembarque do aeroporto.
Recordo agora, escrevendo estas linhas, que foi a partir daquele dia que comecei a prestar mais atenção nas coincidências que, desde sempre, aconteceram em minha vida.

Esta foi das grandes. Como foi acontecer isso? É uma questão de total sincronicidade. Só crendo em magnetismo, Lei da Atração e coisas afins, para justificar. Como pode? Entrar em um avião, onde só há um único acento disponível e me sentar ao lado de um cartunista? E...quantos cartunistas existem em Angola? Pela internet só consegui localizar uns 10. No Brasil somos em mais de 1000. Não é coincidência. Não pode ser. É Sincronicidade. Um conceito desenvolvido pelo notório psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, para “definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado.” Em sua teoria julga tais eventos sincronísticos como algo que não acontece por acaso. Mas por terem um significado igual ou semelhante, que chamou de "coincidência significativa".”





Capitão Caatinga – o anti-herói do nordeste em SP
por Ataíde Braz (*)
Quem se lembra do Capitão Caatinga, personagem criado pelo Franco de Rosa e Seabra?
É certo que poucos se lembram, e muitos nem ouviram falar. No entanto é um marco da História dos Quadrinhos brasileiros. Foi publicado de 1974 a 1978 no jornal Noticias Populares. Talvez esta seja a causa do injusto esquecimento (ou desconhecimento), o enraizado preconceito contra aquilo que é popular, independente de seus méritos.
Na época em que foram publicadas as suas aventuras, as poucas tiras nacionais (e as muitas importadas) eram todas de humor. O Capitão Caatinga ousou ser diferente. Um herói sem poderes, sem colante e cueca por cima da calça.
Era um anti-herói quando eram abundantes os “mocinhos” acima do bem e do mal, sempre a salvar suas eternas noivas. O capitão era diferente. Enrolava-se com mulheres casadas e fugia de cornos. Não fugia por medo. Não. Fugia por que julgava justa a raiva do corno. Assim era o Capitão Caatinga, imoral, porém ético. Até certo ponto. Sua ética não resistia a um rabo de saia. Bom, quando a mulher era feia, a ética do capitão era férrea e incorruptível. Nestes casos mulher casada tinha que ser respeitada.
Ele não percorria o nordeste salvando oprimidos. Ele simplesmente ia vivendo e fugindo da policia. Lutando a sua guerra pessoal para sobreviver. De preferência ele fugia de conflitos, de brigas que não lhe dizia respeito, mas, se fosse pego em um fogo cruzado (e isso sempre acontecia), ele tomava partido do justo. E não fugia da raia!
Mas a maior vitória deste herói foi vencer o cerco dos importados e ter mais de 1000 tiras publicadas, com uma temática genuinamente nacional. É claro que havia muitos pontos fracos. Os autores tinham poucas informações sobre o nordeste, mesmo assim enveredaram pelo tema e criaram um ícone que, infelizmente, é pouco lembrado.
Capitão Caatinga é um marco por que ousou ser homem quando o preconizado era ser um semideus com super-poderes e uma mentalidade tacanha. Um homem, com seus defeitos e virtudes. Mas defeitos do que virtudes.
Uma HQ com diversas falhas, principalmente por causa da pouca experiência de seus autores na época. Mas ambos com uma intuição talentosa! Apesar das falhas, a trajetória vitoriosa do Capitão foi graças à união do velho com o novo. O Franco e o Seabra ousaram criar um personagens que fugia do padrão da época, mas dosaram essas novidades com alicerces conservadores, usando na narrativa os típicos “dogmas” das histórias de aventuras.
Esse é o ponto que admiro na HQ do Capitão e em minha opinião faz dele um marco da HQB. Se na época as HQ de terror tivessem utilizado essa formula ao tentar se modernizar, talvez tivessem evitado a decadência do tema. Fico na torcida para que o Capitão Caatinga seja revisto e atualizado por seus autores, para desbravar novamente os quartos das mulheres casadas e enfrentar volantes e cangaceiros...
(*) Ataide Bras é roteirista que, nascido em Pernambucano, migrou para são Paulo com a família aos 11 anos, em 1966. É autor da graphic novel “A Mulher Diabo no Rastro de Lampião”, que ganhou o prêmio 7º HQ Mix em 1995. O público de retirantes nordestinos migrantes e hoje radicados em São Paulo é um dos públicos-alvos fundamentais da presente proposta.