quinta-feira, 8 de junho de 2017


Ilustras feitas em aquarela para o livro Em Alto e Bom Som, da Editora Laços 






quarta-feira, 7 de junho de 2017







OSCAR - É um super-herói pioneiro brasileiro que precisa ser resgatado

ATUALMENTE ACONTECEM DEBATES NOS EVENTOS DE
QUADRINHOS, PROTAGONIZADOS POR UMA PERSONAGEM
HISTÓRICA DESCONHECIDA, OU MESMO REDESCOBERTA.
FOI O QUE ACONTECEU EM 2005, QUANDO EU, 100 ANOS DEPOIS
DO LANÇAMENTO DA REVISTA O TICO-TICO, AO
REALIZAR A PESQUISA ICONOGRÁFICA, JUNTO AO
COLECIONADOR E ADVOGADO FÁBIO SANTORO, PARA O LIVRO
“O TICO-TICO – O CENTENÁRIO DA PRIMEIRA REVISTA EM QUADRINHOS DO BRASIL”

Oscar, historicamente deveria ser considerado o primeiro super-herói do mundo. Isso porque suas aventuras estrearam em O Tico-Tico em 1906. Enquanto o famoso Superman, só seria lançado em 1938.
O autor de Oscar foi um adolescente brasileiro que, adulto se tornaria um notório acadêmico, Gustavo Barroso.
Oscar era um príncipe e um menino com superpoderes. Coisa muito comum atualmente em centenas de personagens de quadrinhos, mangá, literatura infanto-juvenil, desenhos animados e filmes. Por todo o mundo.
Também, antes de Superman, tivemos Popeye: criado em 1928; Fantasma: criado em 1936; Mandrake: criado em 1934; Hugo Hércules: criado em 1902; Billy Bounce, the ballon boy e Professor Prestochange de 1901; Professor Hypnotiser de 1903; Samson, the strong man, de 1905, todos criados nos EUA e superpoderosos.
Décadas antes de Lanterna Verde, Oscar possuía um anel, com um brasão com símbolo pátrio, que lhe concedia seus poderes especiais. Ele podia voar e usava um uniforme especial.
Em sua aventura Oscar é um príncipe que tem seu reino invadido e tomado por um usurpador. Nosso herói adquire um anel mágico, que tem talhada a bandeira brasileira, que lhe dá superpoderes.
Oscar foi republicado integralmente em 1924 em um álbum, O Anel das Maravilhas, que até pode ser considerada uma das primeiras graphic novels do mundo, ao lado das russas, citadas por Will Eisner em seu tratado, A Arte Sequêncial.
Algumas imagens do Oscar e de seu principal inimigo aparecem timidamente no álbum histórico de luxo O Tico-Tico 100 Anos - Centenário da Primeira Revista de Quadrinhos do Brasil, da Opera Graphica Editora, de 2006.
Foi a partir de então que foram feitas uma série de conexões: Na edição da Opera Graphica o traço de Gustavo Barroso é comparado ao de Moebius. Barroso era nordestino assim como Watson Portela, artista considerado “o Moebius brasileiro”, e que assinava Barroso em algumas de suas obras. Ainda, Watson desenhou uma aventura de super-heróis em estilo mangá chamada “Dragões da Independência”. Peça publicada em 1983 na revista Robô Gigante da editora Grafipar.
ANTES DO SEU TEMPO
Oscar é um herói épico pueril. É um cavaleiro mágico, arquétipo dos heróis medievais. Destemido. Porém, por possuir superpoderes fantásticos, é um super-herói antes do tempo. Apenas os desenhos de seu autor, Gustavo Barroso, um garoto de 16 anos, em 1906, ao criar essa HQ pioneira, bastam para serem considerados obra-prima. Uma história em quadrinhos pioneira e completa é merecedora de todos os elogios e créditos.
Sua estrutura de enquadramentos, planos sequenciais, domínio de anatomia, construção de enredo, design de página, storytelling, constituem uma invenção de um gênero cuja formação engatinhava, em todo o mundo. São experimentações gráficas que à época, só o genial Winsor McCay havia apresentado, em sua série semanal icônica, Little Nemo.
Por sua vez, o menino Barroso mesmo tendo como predecessor Little Nemo, avançou com sua narrativa visual. Além de criar um roteiro de forte carga literária. Ressaltamos a imensa qualidade dos desenhos do jovem, anatômica e tecnicamente superior ao de muitos profissionais de nossas artes desenhadas de então. E mesmo futuros. Não é exagero dizer que Gustavo Barroso com seu Oscar antecipou enquadramentos e tomadas de cenas que se popularizariam nos quadrinhos anos depois, como os castelos medievais e heróis épicos de Príncipe Valente, a partir de 1936, os “quadrinhos redondos” nas páginas de Capitão América, nos anos 1940, as cultuadas narrativas repletas de legendas descritivas e dramáticas, dos quadrinhos de horror da EC Comics, na década de 1950. E ainda o fato de ele ter apresentado sequências aéreas em planos visuais que o notório Moebius viria também a explorar só na década de 1970, em sua cultuada série Arzak.
Se Oscar é ignorado como um super-herói pioneiro, o que dizer então de seu antagonista Hygino? Também surgido em 1906. Hygino é o grande vilão que mata o pai Oscar e sequestra sua irmã, Borboleta. Até então não existia supervilão fixo nas historietas. O primeiro seria Ming, em Flash Gordon, em 1934.
Pena, que continuemos a constatar que além da falta de memória histórica, os brasileiros, muitos dos meio acadêmico e formadores de opinião, da mídia especializada em quadrinhos, preconceituosamente fazem questão de ignorar nosso pioneirismo e experimentalismo. Oscar e Gustavo Barroso são penalizados por isso.
Barroso não ficou só com Oscar. Desenhou dezenas de histórias em quadrinhos institucionais. E seus desenhos realistas se igualam ao dos grandes artistas estrangeiros da década de 1930. Foi ainda responsável pela versão da mais completa História do Brasil em Quadrinhos. Escrita por ele e desenhada pelo notável Ivan Wash Rodrigues e publicada pelo venerado Adolfo Aizen, na editora Ebal, no final da década de 1950, quando os quadrinhos sofriam uma perseguição implacável das instituições moralistas e da Igreja.
Mesmo com As Aventuras de Oscar reunidas em formato de álbum especial na década de 1920. Vinte anos antes do boom dos super-heróis, quem possui tal livro, neste pais de analfabetos na cultura gráfica?
Oscar ganha ainda mais valor quando observamos que foi escrito por um jovem de 16 anos, por tratar de temas que cresceram na mídia com a fantasia de O Senhor dos Anéis, os super-heróis, a ficção científica e toda uma miscelânea narrada no estilo “Era uma vez...”, que é como se entendia as fantasias literárias em sua época.
Não podemos deixar de valorizar aqui o trabalho dos pesquisadores Rod Gonzales e Bartolomeu Lancelott Martins, que em 2015 publicaram dezenas de artigos em seus respectivos blogs, sobre o “super” Oscar.
O CRIADOR DO OSCAR
Gustavo Barroso, foi notável membro da Academia Brasileira de Letras. Seu nome completo: Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso. Usou pseudônimos de : João do Norte, Nautilus, Jotanne e Cláudio França. Nasceu em 29 de dezembro de 1888, em Fortaleza, Ceará. Faleceu em 3 de dezembro de 1959, aos 70 anos, no Rio de Janeiro. Estreou na literatura, aos vinte e três anos, usando o pseudônimo de João do Norte, com o livro Terra de Sol, um ensaio sobre a natureza e os costumes do sertão cearense. Além dos livros publicados, escreveu e desenhou para jornais e revistas de Fortaleza e do Rio de Janeiro.
As obras de Barroso incluem 128 livros, em que aborda História, folclore, ficção, biografias, memórias, política, arqueologia, museologia, economia, crítica e ensaio, além de dicionário e poesia. Quando era deputado, Gustavo Barroso iniciou uma ação para exaltar as tradições militares do Brasil. Apresentou em 1917 um projeto de lei para resgatar as tradições do regimento do império. Em 1927 conseguiu recuperar o uniforme histórico da Guarda Imperial de honra, que ele mesmo desenhou. Historiadores relatam que Barroso usou como referência desenhos de Debret feitos no período imperial.



CRONOLOGIA DA PRÉ-HISTÓRIA DOS SUPER-HERÓIS
1863 - Spring Heeled Jack. Dá supersaltos. Folhetim. Inglaterra
1902 - Hugo Hércules, com superforça. Tira. Jornal Chicago Sunday Tribune. EUA.
1905 - Samson, o poderoso. Tem superforça. Tiras. The New York Evening Telegram. EUA.
1906 - Oscar. Tem anel mágico, superforça, é voador e usa uniforme. Brasil.
1908 - Pimpinela Escarlate. Salteador mascarado. Literatura. Inglaterra.
1912 - Tarzan. Literatura pulp. EUA.
1915 - O Espantalho. Mascarado fora da lei. Literatura. Inglaterra.
1919 - Zorro. Literatura e cinema mudo. EUA.
1928 - Popeye. Superforte. Tiras para jornais. EUA.

1930 - Fantomas (Ôgon Batto). Tem cara de caveira e vários superpoderes. “Teatro de papel”, ao vivo. Japão.

terça-feira, 6 de junho de 2017




Curitiba e os bons quadrinhos

Por Franco de Rosa

Também escrevi artigos sobre quadrinhos para jornais de Curitiba. Para O Estado do Paraná e Correio de Notícias. Pouca coisa. Publiquei tiras diárias na Gazeta do Povo. Na Gazeta, eu levava as tiras a cada três meses. E ontem, último dia de minha mais recente estada na cidade, era segunda de manhã e chovia. Nostalgicamente, voltei aos idos de 1977/78, quando publicava minha tira diária do Chucrutz na Gazeta do povo. Eu sempre ia em segundas feiras. Quase sempre chegava na cidade debaixo de chuva. 

Chegava cedo. Saia de São Paulo no último ônibus. Levava-se quase sete horas de viagem. A pessoa que recebia meus trabalhos, o editor, só chegava na redação as 15 horas. Ele também tratava de fazer meu pagamento. Eu ia a cada dois meses. Ficava andando a pé, da Roviária ao centro da cidade. Passeava buscando conhecer as ruas de acordo com os nomes descritos no livro O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan. Quase sempre acabava indo parar em lugares afamados. Becos, botecos, sinucas, sapatarias e barbearias. Até pontos de baixo meretrício. 

Naquela época haviam os cinemas pulgueiros, que iniciavam as seções as 10 da manhã. Quase sempre com filmes de King Fu. Eram seções corridas, com uns 4 filmes diferentes rolando por dia. 

Lembro de um filme brasileiro, em particular, estrelado por Tony Vieira e Claudete Joubert, devido a uma passagem pitoresca. Entrei com a fita já começada. Chovia muito e a sala estava bem cheia. Dava para perceber, nas cenas externas, pela imensa quantidade de pedras grandes e pelo terreno montanhoso, que o filme havia sido rodado em Itu. Estava acontecendo um bang bang entre dois grupos. Era um faroeste feijoada como apelidaram, aquele gênero brasileiro gerado na Boca do Lixo. 

Pois acontecia de um cara ou outro atirar. E estourar uma lasca de pedra, como os efeitos especiais determinaram. Porém, quando um dos caras saiu de trás de uma pedra, uma lasca estourou de repente. Antes do tempo. Irritado, o artista em vez de se ocultar atrás da pedra, apontou o dedo para alguém próximo da câmera e gritou, "ô, viado!". O fato valeu o dia. 

Estando em Curitiba, eu costumava comer, na hora do almoço, uma pizza de massa grossa, vendida aos pedaços, bem servidos, em um boteco que não existe mais, na Praça Tiradentes. 

Eu publicava tiras na Gazeta, e escrevia artigos sobre quadrinhos e desenho animado para o concorrente, O Estado do Paraná, cuja redação ficava próxima a um pioneiro grupo escolar. Inclusive cheguei a assistir um ensaio de parada de 7 de setembro, dentro desse local. Curiosamente, recordo agora que cheguei a estar em Curitiba várias vezes em nos dias 7 de setembro. E também chovia. A última vez foi na Bienal de Quadrinhos de 2014, onde tive a honra de beber caipirinha ao lado de David Lloyd. 

Mas, no jornal o Estado do Paraná eu publiquei um artigo de página inteira sobre o longa de animação canadense Heavy Metal- Universo em Fantasia, dirigido por Gerad Potterton. Com ajuda de Paulo Nery de Lima, que, como eu, também era autor da Grafipar. Ele me ditou vários trechos do artigo, de uma revista gringa. Para ampliar a matéria. Que foi bem completa, graças ao vasto material de divulgação fornecido pela distribuidora do filme. Tinhamos ali uma obra realmente muito importante. (leia o artigo aqui no blog). 

Antes do filme chegar ao Brasil, eu já havia adquirido sua trilha sonora em Curitiba mesmo, em uma loja de LPS importados que havia ao lado da revistaria do Melo, dentro de uma galeria subterrânea, que existe, próxima, da catedral da cidade. Este disco duplo, em vinil, não saia de meu pic-up, por décadas.

Ocorreu, com este artigo, algo interessante. Ele foi publicado poucos dias depois da estreia do longa. Mas foi muito bem diagramado. Com um desenho do Moebius enorme no centro da página. Foi matéria de página inteira, na última "capa". O resultado é que o filme ficou uma semana a mais em cartaz. Coisa incomum.

Este artigo eu publiquei integralmente no especial que editei para a Grafipar, Xanadú. Com a historieta homônima, escrita e desenhada pelo meu compadre Watson Portela. Cuja arte-final eu realizei.

E hoje, para meu orgulho, Rafael Portela, meu afilhado, nascido em Curitiba, filho de Watson, está desenhando pela primeira vez um roteiro meu. Diretamente de Recife, onde mora atualmente.

domingo, 28 de maio de 2017




África-Brasil

Por Franco de Rosa

Estava em Florianópolis e precisava voltar para São Paulo depressa. Arrisquei. Fui ao aeroporto, sem reservas. Por sorte, havia um passageiro desistente de última hora, assim peguei o único acento disponível. E sentei no corredor. Em uma fila apertada. Na janela estava um loirinha bonita, de cabelos encaracolados, que enviou a cara no vitrô e ali ficou. No meio, um negro enorme, vestido elegantemente um terço azul. Terno. Paletó, calça e colete.
Quando o avião começou a andar pela pista, se preparando para levantar voo, o camarada do meu lado começou a se agitar bastante. Colocava as mão nos ouvidos. Tirava. Se mexia. Girava os olhos. Demonstrava pânico mesmo. A moça enfiou ainda mais a cara na janela. E eu comecei a temer que ele viesse a ter um treco. Mas, assim que a nave se estabilizou e entrou em velocidade de cruzeiro. Ele se acalmou. Felizmente o voo é curto. Perto de 35 minutos.
Então vieram as comissárias de bordo trazendo sucos, agua e lanches. Quando entregaram o dele, ele imediatamente pediu outro, antes mesmo de abrir o seu pacotinho, que só continha um sanduba sem graça mesmo. Eu lhe ofereci o meu. Disse que não iria comer, pois tinha almoçado bem. E era verdade. Havia comido num bar, na vila onde estava hospedado, na Praia da Barra da Lagoa, um farto e delicioso “prato feito” com peixe do mar.
O sujeito devorou os dois pães com presunto e queijo. Agradeceu. Dizendo que acordara muito cedo e não teve tempo de tomar o pequeno almoço. Se desculpando ainda por ter ficado intranquilo durante a subida do avião. Devido aos seu sotaque e expressões usadas, em português castiço, percebi que ele era um cidadão angolano.
Conversamos o resto da viagem. Ele revelou ter sido paraquedista e que lutou na guerra. Participando de 27 missões em território Russo. Quando disse isso interrompeu a narrativa por um instante e me olhou fixamente. Depois continuou, explicando que fez o que se faz nas guerras. Coisas que muitas vezes o fazem acordar no meio da noite. Compreendi, e nada comentei. Seu súbito silêncio revelava que ele havia matado muita gente. Disse, que quando o avião levanta voo, sempre fica incomodado, mas ele precisa viajar pelo menos três vezes ao ano para o Brasil, onde vem comprar implementos agrícolas e equipamentos. Pois agora é um pequeno empresário da agricultura.
Falei então que falei a meu respeito. Que estava em Florianópolis a passeio, mas também trabalhando. Acompanhando a produção de um projeto que vinha sendo desenvolvido fazia 18 anos, a revista livro As Periquitas, com trabalho de 23 autoras. Que eu era autor de histórias em quadrinhos, mas trabalhava mais como jornalista e editor nos últimos tempos.
Então ele arregalou os olhos, e segurando meu braço esquerdo disse que, antes, até o final década de 1990 ele trabalhava no Jornal de Angola, como autor de banda desenhada. Ou seja, histórias em quadrinhos. Desenhando uma tira diária. O nome dele era Antonio Piçarra. Não consegui entender o nome da tira. Mas encontrei pela internet, Mankiko.
Então se anunciou que já estávamos sobre Cumbica. Que iriamos pousar. Desta vez, meu, agora “colega”, não se incomodou com a descida. Foi uma aterrisagem suave, daquelas que os passageiros aplaudem, quando o avião para, no solo. E Sergio apressadamente desceu, pois estava com um grupo de angolanos. Enquanto eu, tranquilamente me dirigi ao ônibus, que leva os passageiros ao saguão de desembarque do aeroporto.
Recordo agora, escrevendo estas linhas, que foi a partir daquele dia que comecei a prestar mais atenção nas coincidências que, desde sempre, aconteceram em minha vida.

Esta foi das grandes. Como foi acontecer isso? É uma questão de total sincronicidade. Só crendo em magnetismo, Lei da Atração e coisas afins, para justificar. Como pode? Entrar em um avião, onde só há um único acento disponível e me sentar ao lado de um cartunista? E...quantos cartunistas existem em Angola? Pela internet só consegui localizar uns 10. No Brasil somos em mais de 1000. Não é coincidência. Não pode ser. É Sincronicidade. Um conceito desenvolvido pelo notório psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, para “definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado.” Em sua teoria julga tais eventos sincronísticos como algo que não acontece por acaso. Mas por terem um significado igual ou semelhante, que chamou de "coincidência significativa".”





Capitão Caatinga – o anti-herói do nordeste em SP
por Ataíde Braz (*)
Quem se lembra do Capitão Caatinga, personagem criado pelo Franco de Rosa e Seabra?
É certo que poucos se lembram, e muitos nem ouviram falar. No entanto é um marco da História dos Quadrinhos brasileiros. Foi publicado de 1974 a 1978 no jornal Noticias Populares. Talvez esta seja a causa do injusto esquecimento (ou desconhecimento), o enraizado preconceito contra aquilo que é popular, independente de seus méritos.
Na época em que foram publicadas as suas aventuras, as poucas tiras nacionais (e as muitas importadas) eram todas de humor. O Capitão Caatinga ousou ser diferente. Um herói sem poderes, sem colante e cueca por cima da calça.
Era um anti-herói quando eram abundantes os “mocinhos” acima do bem e do mal, sempre a salvar suas eternas noivas. O capitão era diferente. Enrolava-se com mulheres casadas e fugia de cornos. Não fugia por medo. Não. Fugia por que julgava justa a raiva do corno. Assim era o Capitão Caatinga, imoral, porém ético. Até certo ponto. Sua ética não resistia a um rabo de saia. Bom, quando a mulher era feia, a ética do capitão era férrea e incorruptível. Nestes casos mulher casada tinha que ser respeitada.
Ele não percorria o nordeste salvando oprimidos. Ele simplesmente ia vivendo e fugindo da policia. Lutando a sua guerra pessoal para sobreviver. De preferência ele fugia de conflitos, de brigas que não lhe dizia respeito, mas, se fosse pego em um fogo cruzado (e isso sempre acontecia), ele tomava partido do justo. E não fugia da raia!
Mas a maior vitória deste herói foi vencer o cerco dos importados e ter mais de 1000 tiras publicadas, com uma temática genuinamente nacional. É claro que havia muitos pontos fracos. Os autores tinham poucas informações sobre o nordeste, mesmo assim enveredaram pelo tema e criaram um ícone que, infelizmente, é pouco lembrado.
Capitão Caatinga é um marco por que ousou ser homem quando o preconizado era ser um semideus com super-poderes e uma mentalidade tacanha. Um homem, com seus defeitos e virtudes. Mas defeitos do que virtudes.
Uma HQ com diversas falhas, principalmente por causa da pouca experiência de seus autores na época. Mas ambos com uma intuição talentosa! Apesar das falhas, a trajetória vitoriosa do Capitão foi graças à união do velho com o novo. O Franco e o Seabra ousaram criar um personagens que fugia do padrão da época, mas dosaram essas novidades com alicerces conservadores, usando na narrativa os típicos “dogmas” das histórias de aventuras.
Esse é o ponto que admiro na HQ do Capitão e em minha opinião faz dele um marco da HQB. Se na época as HQ de terror tivessem utilizado essa formula ao tentar se modernizar, talvez tivessem evitado a decadência do tema. Fico na torcida para que o Capitão Caatinga seja revisto e atualizado por seus autores, para desbravar novamente os quartos das mulheres casadas e enfrentar volantes e cangaceiros...
(*) Ataide Bras é roteirista que, nascido em Pernambucano, migrou para são Paulo com a família aos 11 anos, em 1966. É autor da graphic novel “A Mulher Diabo no Rastro de Lampião”, que ganhou o prêmio 7º HQ Mix em 1995. O público de retirantes nordestinos migrantes e hoje radicados em São Paulo é um dos públicos-alvos fundamentais da presente proposta.

sexta-feira, 26 de maio de 2017



Sequência criada para o livro Biblioteca dos Quadrinhos, de Gonçalo Junior. Desenhos meus. Cores de Wanderley Felipe.


JUN2

Palestra com Franco de Rosa na Gibiteca

Público
 · Organizado por Gibiteca de Curitiba